Cresce a crise no jornalismo: de salários congelados ao fechamento de redações

O trabalho jornalístico sofre as consequências de um longo processo de precarização que conta com ataques à imprensa e com o efeito das fake news

Anderson Figueiredo e Celso Lopez

Veículos multimídia têm queda nas vendas e edições impressas são as mais afetadas (Foto: Anderson Figueiredo)

O trabalho jornalístico tem sofrido cada vez mais com um longo processo de precarização. Entre os pilares que alimentaram esse contexto estão a Lei da Terceirização, aprovada em 2017, que permite o uso da terceirização em todas as áreas das empresas, a Reforma Trabalhista, também de 2017, e a Reforma da Previdência de 2019. Sobretudo na era das fake news, os meios de comunicações jornalísticos assumem um importante papel de filtradores da informação para o público. Apesar dessa função fundamental, o exercício jornalístico sente os efeitos de um cenário desolador, que causa desde uma redução drástica de profissionais no meio, até o fechamento completo de redações, das mais novas às mais tradicionais.

De acordo com dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC), o A Tarde, mais antigo jornal impresso da Bahia em circulação, teve uma queda de quase 72% na circulação da edição impressa entre dezembro de 2014 e outubro de 2021. Há oito anos, mais de 30 mil dos seus impressos estavam em circulação diariamente no estado, já no ano passado, esse valor não alcançou a faixa dos 9 mil exemplares. O que poderia sinalizar uma transição até natural do meio físico para o meio digital dos modos comunicacionais, se tornou símbolo de uma sequência de boicotes ao jornalismo.

A maior queda ocorreu na virada de 2014 para 2015, mas o processo de precarização foi contínuo e resultou em crise para o Grupo A Tarde (Dados do IVC)

Moacy Neves, presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (SinjorBA), explica os impactos nocivos desse contexto tanto para os profissionais da área, quanto para o público geral. “A diminuição da tiragem dos jornais impressos traz diversos aspectos negativos para o mercado de trabalho e para o jornalismo. Diminuem as vagas de emprego, já tivemos 1.200 jornalistas empregados em seis grandes e médios jornais na Bahia e hoje temos menos de 200, amplia a precarização do trabalho e faz cair a produção de conteúdo local”, analisou Moacy. Na visão do sindicalista, essas circunstâncias resultam na perda da mão de obra profissional do jornal impresso, que já foi o maior recrutador desses trabalhadores, para o mercado de assessoria. No fim, a qualidade do exercício jornalístico consequentemente diminui.

Moacy fala sobre a precarização do jornalismo em aula aberta na Universidade Federal da Bahia
(Foto: Micaele Santos)

A circunstância atual é percebida na prática através de eventos como o que ocorreu no último dia 8 de maio, quando trabalhadores do Grupo A Tarde, que também engloba o jornal “Massa!”, paralisaram as operações por 48h. O protesto ocorreu no intuito de reivindicar desde o descongelamento do salário que não foi atualizado desde 2016, até os atrasos no pagamento desses salários defasados. Também de acordo com o sindicalista, o A Tarde precisou reduzir a sua mão de obra de 450 pessoas em uma redação na década de 90, para uma média de 45 trabalhadores nos últimos anos, assim como também ocorreu com o Jornal Correio.

O A Tarde, assim como os veículos impressos, são grandes símbolos de crises no jornalismo brasileiro, mas a falência do jornalismo se dá de forma geral, e também atinge veículos multimídia. Em levantamento feito pelo Portal Comunique-se, ao menos um veículo de comunicação foi fechado por mês no Brasil, em 2021. No total, pelo menos doze veículos fecharam as portas. Em fevereiro do ano passado, depois de 139 anos, o Diário do Nordeste circulou sua última versão impressa. O mesmo aconteceu com o Jornal da Cidade, de Santa Maria (RS) e com o Jornal do Commercio, de Recife. Na mídia televisiva, o canal Loading, ficou no ar até novembro de 2021, mas foi retirado e substituído pelo programa da Igreja Mundial do Poder de Deus.

A imprensa como grande vilã da opinião pública

Dois temas são centrais quando se trata de legitimar as informações divulgadas pelas mídias jornalísticas, as fake news e os ataques à imprensa. Ao menos é o que opina Ana Verônica, jornalista que produz conteúdo para a TV Santa Cruz, afiliada da Rede Bahia em Itabuna. “A deterioração da credibilidade da empresa a partir das fake news começa no momento em que a notícia falsa é produzida diretamente para isso. Para acabar com a credibilidade, atacando diretamente um veículo ou um jornalista. Outra consequência das fake news é que elas criam uma bolha de enganação. Nelas as pessoas já estão envoltas em vários dados falsos e quando as informações corretas chegam, já existe uma barreira”, afirmou Ana.

Moacy Neves oferece outra ótica e aponta o grande alcance dessas notícias falsas como principal fator da problemática. “As fake news sempre existiram. O que ocorre hoje é a velocidade de sua propagação e o alcance, por conta das redes sociais. É um grande problema porque o jornalismo precisa sempre correr atrás para desmentir a notícia fraudulenta para oferecer à sociedade a verdade do fato. É um duplo trabalho, às vezes retrabalho. Porém, não podemos desistir. A vacina para esse problema é conteúdo de qualidade produzido por jornalistas capacitados, éticos e com responsabilidade social”, destaca.

A discussão sobre as fake news ganhou maior relevância nas eleições de 2018 e, em 2020, o projeto de lei n° 2630, denominada “Lei das Fake News”, foi proposta pelo Senador Alessandro Vieira (CIDADANIA/SE) e aprovada no Plenário, logo, passou a ser debatida na câmara dos deputados. Contudo, após várias mudanças no texto original e divergências entre grupos políticos, a PL ficou congelada no mesmo ano e ainda não possui um desfecho. No projeto, o objetivo descrito é o de combater a desinformação na internet, com aumento da transparência nas redes sociais e até em conteúdos patrocinados, com sanções para o descumprimento da lei.

Limites para um jornalismo mais democrático

Além da capacitação da categoria, que foi atrapalhada pela Lei da Terceirização aprovada em 2017, outro ponto importante a ser discutido é a regulamentação da mídia, que difere de maneira importante do termo “regulação”, como comenta Moacy Neves. “Regulação da mídia é uma fake news. O que é necessário, e que já existe em todas as nações desenvolvidas do mundo é a regulamentação da mídia, que é criar um conjunto de regras que evite excessos e transgressões. O que se discute é acabar com a propriedade cruzada de veículos, isto é, o mesmo grupo é dono de jornal, emissora de TV e rádio, site de notícias e canais de streaming”, argumentou o presidente do SinjorBA.

Entre outras medidas defendidas pela regulamentação da mídia estão a definição de percentual de produção do conteúdo local nas emissoras e regras mais claras e ágeis ao direito de resposta. Segundo Moacy, isso é o que de fato mudaria com a aprovação do projeto de regulamentação da mídia. No debate, o termo “regulação” foi inserido para confundir a sociedade e passar a sensação de que há setores em defesa da censura, ideia que o sindicalista discorda.

Entrevista com Moacy Neves

Moacy Neves é o atual presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Foto: ASCOM do SinjorBA)

Apesar da situação catastrófica em que se encontra a maior parte do jornalismo brasileiro, Moacy Neves ainda acredita em um melhor futuro para a categoria e explica como podemos chegar lá. Além disso, o sindicalista analisou como a crise atual começou já no século passado e o que aconteceu para que o contexto atual seja tão desfavorável a um jornalismo mais democrático.

Pergunta: Como a crise que está instaurada no jornalismo atual começou?

Resposta: A crise começou no final do século passado, início desse século, quando parte da verba publicitária migrou para a internet. Os veículos não entenderam o fenômeno que ia se apresentando e não se prepararam para integrar as plataformas e os produtos. O jornal ainda tem nicho de mercado. Só não é o mesmo de 20, 30 anos atrás. É preciso entender essa nova realidade e formatar um produto adequado. Os profissionais vão se encaixar na nova fronteira que se abriu. As faculdades podem cumprir um papel importante ao desenvolver currículos que incluam as exigências desse novo mercado.

Pergunta: Qual é a importância do diploma universitário nesse debate?

Resposta: A derrubada do diploma como exigência ao exercício profissional veio junto com outros ataques ao jornalismo e aos jornalistas. É uma forma de precarizar a profissão, rebaixar salários e nivelar por baixo. No fundo, atinge o interesse social de se ter informação de qualidade. Enfrentamos esse debate no movimento sindical e nos adaptamos à realidade para impedir o avanço da precarização do trabalho. Mas continuamos defendendo o diploma e vamos retomar essa luta em breve, pois achamos que o Brasil vai rever seu rumo de atraso. Acho que o eleitor vai nos legar um governo mais democrático e um congresso menos atrasado e retrógrado como esse que temos hoje, criando um ambiente melhor para discutir as nossas propostas.

Pergunta: Pode me dizer dois passos que o jornalismo baiano pode seguir para começar a caminhar melhor, em relação a precarização do trabalho?

Resposta: Fomentar o debate e apoiar algumas de nossas propostas. Por exemplo, defendemos uma melhor distribuição da verba publicitária pública, que hoje vai em boa parte para plataformas digitais, que não geram um emprego no Brasil e não produzem conteúdo jornalístico e temos uma proposição de taxação das big techs para a criação de um fundo de fomento ao jornalismo. As empresas precisam também estabelecer relações de trabalho mais modernas, para debater sem imposições as demandas da categoria, como um piso salarial decente e digno, que atendam à exigência de um jornalismo de qualidade.

Pergunta: Até onde o Sindicato pode ir nas negociações entre patrões e empregados?

Resposta: Nosso limite é a disposição de mobilização e unidade da categoria. Não há conquista sem luta. E os patrões sabem disso. Eles sabem quantos dos seus empregados são filiados ao Sindicato e se aproveitam de uma visão individualista ainda existente entre nós na visão sobre o futuro da profissão. Para os jornalistas não há outra opção. Ou nos mobilizamos para pressionar as empresas, ou a precarização vai aumentar.

Pergunta: O que você, enquanto indivíduo, gostaria de deixar como legado para o sindicato e para o jornalismo baiano de maneira geral?

Resposta: Gostaria de ajudar a categoria a compreender sua força como agente transformador de sua própria realidade. E de ter um sindicato como sua referência de luta e mudança. Não temos outra opção.

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